Sobre o savouring e o awe
Sabem aquela manhã em que chegam ao trabalho depois das férias, sentam-se à secretária, mais ou menos acordados, e não conseguem, de forma alguma, lembrar-se da vossa password?
Ou então quando abrem uma pasta à procura de um documento que sabem que existe, certos do seu conteúdo, mas sem a mínima ideia de onde foi guardado? Uma pequena e teimosa parte da arquitetura da semana de trabalho simplesmente desapareceu. Durante anos interpretei isto como uma pequena falha, prova de que tinha deixado escapar alguma coisa enquanto estava ausente de férias.
Ultimamente tenho começado a pensar que é precisamente o contrário. Se uma mente é capaz de esquecer algo tão básico como a sua própria password de acesso, é porque genuinamente deixou de estar de vigia, e baixou a guarda, por um bocadinho.
Acontece que este sentimento tem afinal uma história bem mais antiga… Os vitorianos tinham o seu próprio nome para o que acontece quando uma pessoa trabalha demasiado durante demasiado tempo: na altura chamavam-lhe overwork (excesso de trabalho), e levavam o assunto suficientemente a sério para o descrever em tratados médicos.
Um deles, da autoria do Dr. C.H.F. Routh, teve quatro edições entre 1873 e 1888. O overwork não era visto como uma desculpa moderna, mas como uma condição genuína e perigosa, provocada precisamente pelas coisas de que os vitorianos mais se orgulhavam: os caminhos-de-ferro, o telégrafo, um império que nunca parava de precisar de atenção. Soa familiar este retrato…?

O tratamento recomendado, para quem o podia pagar, era Menton, na Riviera Francesa, promovido sobretudo pelo Dr. James Henry Bennet, cujos livros tornaram o destino famoso entre os britânicos. Não um fim de semana prolongado ali, mas meses seguidos, por vezes um inverno inteiro, por vezes três invernos consecutivos.
Os pacientes eram levados todos os dias a um recanto diferente da costa, abrigado e soalheiro, o mar sempre presente, a luz sempre a mudar de tom ao longo do dia, partindo da ideia, nas palavras da época, de que “a mente refresca-se com a mudança.”
Há um estranho conforto em descobrir que esta ideia já existia, plenamente formada, cento e cinquenta anos antes de alguém pensar em medi-la, muito antes de lhe chamarem savouring ou de lhe darem direito a uma linha numa revista sobre bem-estar.
O que me impressionou agora, ao ler sobre estes passeios diários pela costa, é como se parecem com algo que a psicologia só veio a nomear muito mais tarde. Fred Bryant e Joseph Veroff, no início dos anos 2000, descreveram o savouring (saborear) como a atenção deliberada que dedicamos a uma experiência positiva enquanto ela acontece, em vez de a deixarmos passar despercebida.
E mostraram que se pode saborear de três formas: antes de acontecer, enquanto acontece, e depois de já ter passado. Sem saberem, os vitorianos praticavam as três, a contar os dias até Menton, os passeios diários já lá, e o depois, quando regressavam a casa transformados sem saberem bem porquê.
Também no inicio dos anos 2000, Dacher Keltner e Jonathan Haidt defendiam o awe (deslumbramento) como uma emoção distinta, que surge sempre que encontramos algo demasiado vasto para caber confortavelmente no nosso sentido habitual do mundo, algo que nos obriga a rever, ainda que por um instante, a forma como vemos tudo à nossa volta. Não é preciso muito para o provocar: um horizonte de mar que não acaba, uma luz que muda o feitio das coisas. Tudo aquilo que aquieta o burburinho da mente e estica a nossa perceção do tempo.
Os pacientes de Bennet, deslocados todos os dias para uma nova vista soalheira ao longo da Riviera, estavam, sem o saber, a receber uma dose constante exatamente disto.
Acho este pensamento estranhamente comovente. Os vitorianos não podiam não ter nome ainda para o que faziam, mas tinham percebido corretamente que mudar de paisagem e prestar-lhe atenção fazia algo fiável a uma mente cansada, muito antes de alguém conseguir explicar porquê.
Vale a pena, no entanto, parar para pensar em quem tinha acesso a esta cura. Menton era para quem podia pagar meses junto ao mar, e o descanso, ao que parece, sempre precisou de permissão, uma permissão que nunca foi distribuída de forma equitativa. Um tema que fica para outra conversa.

A verdade é que ainda não fui de férias este ano. Irei em meados de agosto, ainda está a algumas semanas de distância, e já ando a contar os dias… daquela forma como se conta uma contagem decrescente quando chega ao dez: entusiasmante.
Mas agora já sei o que vem a seguir. Há sempre uma manhã, uns dias depois de regressar, em que me sento e simplesmente não consigo lembrar-me da password. Ou vou à procura de um documento que sei que guardei nalgum lado e não encontro nada. Todos os anos, sem falhar. Costumava ficar um pouco irritada por causa disto, como se tivesse deixado escapar alguma coisa.
Agora sei que significa apenas que o meu cérebro genuinamente desligou por uns tempos, verdadeiramente desligado, não aquele meio vapor que gerimos na maioria dos fins de semana. Por isso, se voltar a acontecer em setembro, vou aceitar isso pelo que é: o esquecimento é apenas a forma discreta das férias confirmarem que fizeram o seu trabalho.
Um pequeno convite
Este agosto, antes de avançar para a próxima tarefa, deixo-vos o convite para repararem num momento que valha a pena saborear em vez de o deixar passar a correr, uma vista, um sabor, uma hora sem nada marcado, e simplesmente ficar com ele um pouco mais do que o habitual. Não é preciso relatar nem mostrar a ninguém, apenas notar e é só isso…
É também por isto que, ao longo deste mês, vamos reduzir um pouco a nossa presença nas redes sociais. Menos publicações, mais espaço para saborear e admirar, para a Associação e para todos os que nos seguem. Continuaremos por aqui, apenas com um ritmo mais pausado, coerente com aquilo que este mês nos convida a viver.
Paula Paixao Senra, APPFHS
Referências
Bryant, F. B., & Veroff, J. (2007). Savoring: A New Model of Positive Experience. Lawrence Erlbaum Associates.
Keltner, D., & Haidt, J. (2003). Approaching awe, a moral, spiritual, and aesthetic emotion. Cognition & Emotion, 17(2), 297–314.
Shuttleworth, S. (2026, 5 de junho). Victorians called burnout “overwork” — and they cured it by holidaying in France. The Conversation. https://theconversation.com/victorians-called-burnout-overwork-and-they-cured-it-by-holidaying-in-france-284388

