Educação Positiva diante dos novos desafios da escola: entre o Brasil e Portugal

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Há algumas décadas, quando falávamos sobre os desafios da educação, em especial na educação básica, era comum que a conversa começasse pela aprendizagem: como ensinar melhor Matemática, Língua, Ciências, História?

Hoje, continuamos precisando responder a essas perguntas — mas elas já não são suficientes.

A escola contemporânea precisa ensinar crianças e jovens a aprender em um ambiente atravessado por desafios que tinham outra dimensão nas gerações anteriores: bullying e cyberbullying, racismo e discriminação, misoginia e violência de gênero, polarização, solidão, ansiedade, excesso de estímulos, redes sociais desenhadas para capturar atenção, inteligência artificial capaz de produzir textos, imagens, respostas e argumentos em poucos segundos.

Diante desse cenário, o que significa educar para o desenvolvimento humano quando o próprio ambiente em que as pessoas se desenvolvem está mudando tão rapidamente e está cada vez menos favorável ao aprendizado?

Possivelmente é aqui que a Educação Positiva precise ampliar seu campo de atuação, deixando de lado a ideia de apenas ensinar competências socioemocionais ou de promover bem-estar, e tratar das capacidades humanas que precisam ser fortalecidas para que crianças e jovens possam viver, aprender e se relacionar em um mundo cada vez mais complexo. (Teoria MUNDO BANI de Jamais Cascio – 2018)

A escola já não educa apenas para o mundo que conhecemos

Uma das discussões que têm chamado atenção nos estudos do desenvolvimento cognitivo é a mudança temporal nos resultados de testes de inteligência.

Um estudo de 2024, por exemplo, encontrou mudanças intergeracionais complexas em medidas de inteligência entre 2005 e 2024, incluindo redução em alguns indicadores associados ao fator geral de inteligência, embora outras habilidades tenham apresentado ganhos. (Universidade de Viena, 2024)

Isso não autoriza concluir que “as novas gerações estão ficando menos inteligentes”, mas deveria nos levar a fazer uma pergunta educacional importante: quais capacidades cognitivas e socioemocionais estamos fortalecendo — e quais estamos deixando de exercitar?

Um dos grandes desafios: aprender a conviver

Sem dúvidas, uma das grandes questões da atualidade é o uso das tecnologias no campo educacional e nas estruturas das relações humanas. No entanto, enquanto discutimos inteligência artificial e o impacto das redes sociais na vida de estudantes, existe uma tecnologia muito mais antiga que continua determinando boa parte da experiência escolar: a relação entre pessoas.

E por isso, é impossível falar seriamente de bem-estar na escola sem falar de violência, preconceito e pertencimento, pois uma educação comprometida com o desenvolvimento humano precisa ser também uma educação antibullying, antirracista e antimachista, não como apêndices de um projeto de Educação Positiva, mas como parte da própria construção de ambientes onde as pessoas possam florescer.

Não existe desenvolvimento pleno quando um estudante precisa gastar parte significativa de sua energia tentando descobrir se será aceito por aquilo que é, ou sendo impedido de manifestar as suas forças pessoais e a sua identidade com autenticidade.

O bullying é um exemplo particularmente claro.

Portugal oferece hoje um dado importante para essa discussão. Em 2025, um estudo nacional com 31.133 estudantes entre 11 e 18 anos identificou que 5,9% declararam ter sido vítimas de bullying e 6,1% de cyberbullying. O relatório português também chama atenção para os impactos dessas experiências sobre o bem-estar, a saúde mental e a trajetória escolar, defendendo respostas preventivas, educativas e restaurativas. (Relatório do Grupo de Trabalho de Combate ao Bullying nas Escolas, 2025)

No Brasil, a legislação educacional também estabelece a necessidade de medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying e de promoção de uma cultura de paz no ambiente escolar, a exemplo da Lei 13663/2018, que alterou a LDB (leis de diretrizes e bases), tal como a Lei 14,811/2024, que passou a criminalizar o bullying e o cyberbullying no Código Penal.

Mas, e se mudássemos a pergunta de: “Como combater o bullying?”, para “Que cultura escolar torna determinadas formas de violência socialmente toleráveis?”

Essa mudança de pergunta pode nos ajudar a destacar que combater o bullying depois que ele acontece é necessário, mas construir relações baseadas em respeito, pertencimento, empatia, responsabilidade e reconhecimento da dignidade do outro é uma estratégia anterior ao problema, como uma medida preventiva e, por isso, talvez mais eficaz.

E aqui a Educação Positiva encontra uma de suas maiores possibilidades.

Educação antirracista também é Educação Positiva

O mesmo raciocínio destinado às questões bullying vale para o racismo. Ou seja, não podemos falar em forças de caráter, relações positivas, pertencimento ou florescimento humano enquanto ignoramos que determinados estudantes podem chegar à escola carregando experiências de discriminação que não são individuais, mas sociais e históricas.

Uma Educação Positiva comprometida com evidências precisa reconhecer que o contexto interfere nas possibilidades de desenvolvimento. Afinal, a ideia de que 40% da nossa felicidade está nas ações intencionais e apenas 10% nas circunstâncias de vida já foi refutada a muito (Brown & Rohrer, 2019; Sheldon & Lyubomirsky, 2019), mesmo que alguns profissionais insistam em utilizá-la para justificar suas posturas apáticas da responsabilidade social contra a discriminação de alguns corpos.

Em outras palavras, não basta perguntar quais são as forças de um estudante.Precisamos perguntar também: o ambiente permite que essas forças apareçam? esse estudante é valorizado na sua identidade? como podemos reduzir os abismos de acesso entre as oportunidades que cada estudante tem ao longo da vida?

Isso desloca a Psicologia Positiva de uma interpretação excessivamente individual do bem-estar, como acontecia na sua primeira onda e a impulsiona para o olhar mais contemporâneo da sua Terceira Onda, com olhares mais amistosos para circunstâncias coletivas e soluções mais multidisciplinares.

Não basta ensinar resiliência para quem enfrenta adversidade, é preciso também examinar as condições que produzem ou mantêm determinadas adversidades.

Nesse sentido, educação antirracista não é um tema externo à Educação Positiva, mas sim  uma condição para que conceitos como pertencimento, bem-estar, felicidade, relações positivas, justiça, propósito e florescimento possam ser tratados com seriedade e respeitando a ipseidade.

E o mesmo vale para a misoginia e lgbtfobia

A escola também é um dos lugares onde crianças e adolescentes aprendem — explícita ou implicitamente — o que significa ser homem, ser mulher, ou todo o espectro que possa existir para além dessa binariedade, e relacionar-se com o outro.

Piadas, estereótipos, objetificação, controle, violência verbal e naturalização de desigualdades podem ser aprendidos muito antes de qualquer relação adulta. Por isso, uma Educação Positiva contemporânea não pode ensinar apenas “boas relações”.

Ela precisa ensinar relações respeitosas, estimular empatia e desenvolver a capacidade de reconhecer limites, desigualdades, diferenças de poder e consequências das próprias ações.

Devemos ensinar autorregulação, mas também é preciso ensinar que nenhuma emoção — raiva, ciúme, frustração ou desejo — autoriza violência contra outra pessoa. Bem como, ao ensinarmos autoestima é preciso construir uma cultura em que a autoestima de uma pessoa não dependa da diminuição de outra.

É preciso ensinar autenticidade, mas sobretudo, desenvolver a capacidade de conviver com corpos e subjetividades distintas daquelas que se encontram no próprio indivíduo, estimulando a tolerância e, em última instância, a paz como estilo de vida.

Brasil e Portugal: contextos diferentes, perguntas semelhantes

Mesmo estando conectados pela história e pelo idioma, Brasil e Portugal possuem sistemas educacionais, histórias e desafios sociais diferentes. Por isso, seria inadequado importar modelos de um país para outro sem considerar o contexto.

Mas existe uma aproximação importante, quando o assunto é educação: os dois sistemas educacionais já reconhecem que a formação dos estudantes não pode ser reduzida à aquisição de conhecimentos acadêmicos.

No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular – BNCC incorpora competências relacionadas ao autoconhecimento, à empatia, à cooperação, à responsabilidade, ao cuidado com a saúde física e emocional e à cidadania, distribuídas em 10 competências gerais e 05 competências socioemocionais bem definidas: Autoconsciência, Autogestão, Consciência Social, Habilidades de Relacionamento e Tomada de Decisão Responsável. (MEC, 2020)

Em Portugal, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória – PASEO  inclui áreas como desenvolvimento pessoal e autonomia, relacionamento interpessoal e bem-estar, saúde e ambiente, neste caso, listadas em 10 áreas de competências, tanto técnicas quanto socioemocionais.

O desafio, portanto, não parece estar apenas em convencer os sistemas educacionais de que essas dimensões são importantes, mas sim em transformar princípios em experiências cotidianas, transportando o que a ciência da felicidade (Psicologia Positiva) investiga e descobre para a vivência prática do ambiente escolar . E isso exige mais do que novas disciplinas.

O que pode significar Educação Positiva na prática?

Talvez uma das maiores contribuições da Psicologia Positiva para a educação seja justamente oferecer uma mudança de foco: sair da pergunta sobre aquilo que está errado e investigar também aquilo que permite às pessoas funcionar melhor e atingirem melhores níveis de autenticidade e bem-estar.

Na escola, isso pode assumir formas muito concretas, como por exemplo criar espaços estruturados para que estudantes participem de decisões que afetam sua experiência, ou  utilizar práticas de reconhecimento de forças pessoais não para distribuir elogios, mas para ajudar os estudantes a compreenderem como seus recursos pessoais podem ser utilizados diante de problemas reais.

Também pode significar ensinar gratidão sem transformá-la em obrigação de “ver o lado bom” de situações difíceis, ou trabalhar esperança como capacidade de construir caminhos possíveis para objetivos desejados — e não como pensamento positivo.

Pode, ainda, significar utilizar práticas de atenção e autorregulação para ajudar estudantes a reconhecer estados emocionais e tomar decisões com maior consciência e criar protocolos restaurativos para conflitos, em vez de depender exclusivamente de punições.

Pode propor desenvolver projetos que coloquem estudantes diante de problemas reais de sua comunidade, articulando propósito, pertencimento, cidadania e aprendizagem e também ensinar letramento digital e de IA como competência humana, e não apenas como habilidade técnica.

O ponto central é que nenhuma dessas práticas deveria existir isoladamente.

VALE LEMBRAR: A escola positiva não é uma escola sem sofrimento

Existe um risco importante quando falamos sobre Educação Positiva: transformar o conceito de bem-estar em uma obrigação.

Uma escola positiva não é uma escola em que todos estão felizes. Não é uma escola sem conflitos. Não é uma escola onde professores precisam demonstrar entusiasmo permanentemente. E, definitivamente, não é uma escola que ensina crianças e adolescentes a encontrar um “lado positivo” em tudo.

Isso seria uma caricatura da própria Psicologia Positiva.

É fundamental lembrarmos que bem-estar não significa ausência de sofrimento. Uma vida psicologicamente saudável inclui perdas, frustrações, conflitos, incertezas e emoções desagradáveis.

A questão educacional aqui é outra: estamos ajudando crianças e jovens a desenvolver recursos para compreender, enfrentar e transformar essas experiências?

E, mais importante: estamos construindo ambientes que não produzam sofrimento desnecessário?

Essa última pergunta é especialmente importante, porque não podemos ensinar resiliência para estudantes e, ao mesmo tempo, considerar normais ambientes escolares marcados por humilhação. Não podemos falar sobre autorregulação e ignorar jornadas excessivamente sobrecarregadas. Não podemos ensinar empatia e tolerar racismo, misoginia ou lgbtfobia. Não podemos falar sobre pertencimento enquanto determinados estudantes precisam esconder partes importantes de quem são para se sentirem seguros.

Talvez a Educação Positiva precise ser mais corajosa

Durante algum tempo, falar sobre Psicologia Positiva na educação significava, muitas vezes, falar sobre felicidade, gratidão, forças, emoções positivas e motivação.

Esses temas continuam relevantes e centrais na discussão, mas talvez a escola contemporânea esteja nos pedindo algo mais.

Ela está nos pedindo uma Educação Positiva capaz de conversar com a violência e não apenas com o bem-estar. Com o racismo e não apenas com a diversidade.Com a misoginia e não apenas com os relacionamentos. Com a desigualdade e não apenas com as oportunidades. Com a tecnologia e não apenas com a inovação. Com a inteligência artificial e não apenas com a produtividade.Com o sofrimento e não apenas com a felicidade.

Isso não diminui a Psicologia Positiva. Ao contrário: torna sua contribuição mais necessária.

Não é verdade que o grande desafio da Psicologia Positiva e da educação Positiva seja fazer com que as escolas sejam lugares onde os estudantes estejam sempre bem.

O verdadeiro papel da Educação Positiva é favorecer o cultivo de escolas onde esses estudantes possam desenvolver recursos pessoais e coletivos para pensar melhor, relacionar-se melhor, enfrentar adversidades, reconhecer injustiças, fazer escolhas responsáveis e construir uma vida com sentido.

Talvez seja esse o ponto de encontro entre Brasil e Portugal: duas realidades educacionais diferentes, diante de uma transformação que ultrapassa fronteiras.

E uma pergunta que permanece aberta: que seres humanos queremos ajudar a formar — e que tipo de escola precisamos construir para tornar isso possível?

Continuamos a buscar novos e melhores caminhos.

Gilmar Carneiro, Sócio APPFHS, Brasil, Setembro de 2026

Referências

Brasil. Ministério da Educação. (2018). Base Nacional Comum Curricular. MEC.

Brasil. (2018). Lei n.º 13.663, de 14 de maio de 2018. Diário Oficial da União.

Brasil. (2024). Lei n.º 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Diário Oficial da União.

Brown, N. J. L., & Rohrer, J. M. (2019). Easy as (happiness) pie? A critical evaluation of a popular model of the determinants of well-being. Journal of Happiness Studies, 21(4), 1285–1301. https://doi.org/10.1007/s10902-019-00128-4

Cascio, J. (2020). Facing the age of chaos. Medium.

Grupo de Trabalho de Combate ao Bullying nas Escolas. (2025). Relatório do Grupo de Trabalho de Combate ao Bullying nas Escolas. Ministério da Educação, Ciência e Inovação / Ministério da Juventude e Modernização.

Martins, G. O., Gomes, C. A. S., Brocardo, J. M. L., Pedroso, J. V., Carrillo, J. L. A., Silva, L. M. U., Encarnação, M. M. G. A., Horta, M. J. V. C., Calçada, M. T. C. S., Nery, R. F. V., & Rodrigues, S. M. C. V. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação/Direção-Geral da Educação.

Oberleiter, S., Fries, J., Dejardin, F., Heller, J., Schaible, C., Vetter, M., Voracek, M., & Pietschnig, J. (2024). Inconsistent Flynn effect patterns may be due to a decreasing positive manifold: Cohort-based measurement-invariant IQ test score changes from 2005 to 2024. Intelligence, 107, Artigo 101867. https://doi.org/10.1016/j.intell.2024.101867

Sheldon, K. M., & Lyubomirsky, S. (2019). Revisiting the sustainable happiness model and pie chart: Can happiness be successfully pursued? The Journal of Positive Psychology, 16(2), 145–154. https://doi.org/10.1080/17439760.2019.1689421