A Esperança como Bússola: Ciência e Prática do Florescimento em Tempos de Incerteza

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Muitas vezes confundida com um mero desejo passivo ou um otimismo ingénuo, a esperança é, na verdade, uma das forças de carácter mais robustas da Psicologia Positiva. Em tempos onde a incerteza parece ser a única constante e os desafios globais se intensificam, surge a pergunta: será a esperança apenas um refúgio emocional ou uma ferramenta estratégica para a ação individual e coletiva?

A investigação contemporânea revela que a esperança não é um sentimento vago, mas um estado cognitivo e motivacional mensurável. Tradicionalmente, baseamo-nos no modelo de C.R. Snyder (2002), que assenta em três pontos essenciais:

  1. Objetivos (Goals): A capacidade de visualizar metas claras.
  2. Caminhos (Pathways): A flexibilidade mental para gerar rotas alternativas perante obstáculos.
  3. Agência (Agency): A crença na nossa própria capacidade de iniciar e sustentar o movimento.

“A esperança não é um mero desejo de que as coisas corram bem. É a crença de que temos a vontade e os caminhos necessários para as concretizar.” 
C.R. Snyder

No entanto, o florescimento humano exige uma visão mais ampla. É aqui que o trabalho de Andreas Krafft e o seu estudo do Barómetro da Esperança mostra-nos uma abordagem do indivíduo no seu contexto. Krafft propõe uma visão transdisciplinar onde a esperança não é apenas o que eu consigo fazer, mas a confiança nos recursos externos e na capacidade de cooperação humana.

O estudo anual liderado por Krafft em mais de 30 países, e realizado em Portugal pela Professora Helena Marujo, demonstra que a esperança atua como um preditor de resiliência e bem-estar (Krafft, 2024). Os dados revelam informações importantes a ter em conta:

  • Esperança vs. Otimismo: Enquanto o otimismo foca na expectativa de bons resultados, a esperança foca na possibilidade e no valor do que é desejado, mesmo quando as probabilidades são baixas.
  • Fontes de Esperança: Os resultados indicam que as relações interpessoais, a natureza e o sentido de contribuição social são os pilares que sustentam a esperança em tempos de crise.
  • O ciclo virtuoso: Existe uma correlação positiva entre níveis elevados de esperança e a capacidade de encontrar significado na vida (Eudaimonia), gerando indivíduos mais proativos na construção de soluções sociais.

No entanto, ainda surgem alguns mitos sobre a Esperança, sobre os quais é importante refletir, um deles é que “A esperança é negar a realidade”. Pelo contrário, a verdadeira esperança requer uma avaliação lúcida das dificuldades para que se possam traçar caminhos reais. Também surge  a ideia de que “A esperança é uma característica inata”. A ciência demonstra que é uma competência cognitiva que pode ser aprendida e fortalecida através de intervenções práticas.

“O otimismo foca-se nas probabilidades; a esperança foca-se nas possibilidades e no valor que damos a um futuro melhor.”
Andreas Krafft

Exatamente por ser uma competência que todos podemos desenvolver, há pequenas estratégias práticas que nos ajudam a cultivar a Esperança já hoje:

🌿 Definir micro-objetivos: Quebrar grandes sonhos em tarefas pequenas e atingíveis para alimentar o sentido de competência.

🧠 Treinar o pensamento de possibilidades: Perante um “não”, procurar e desenhar três alternativas diferentes para chegar ao mesmo fim.

🤝 Conectar-se e contribuir: Participar em projetos coletivos. O Barómetro da Esperança mostra que a agência coletiva ou seja o “nós conseguimos” é um dos maiores antídotos contra a ansiedade social.

Esperar não é sentar-se à espera que o futuro aconteça; é levantar-se para o construir. Como nos ensina a ciência, a esperança é a luz que não só ilumina o caminho, mas que nos dá a energia necessária para o percorrer. 

“A esperança é a crença de que os eventos negativos de hoje são temporários e mutáveis através do nosso próprio esforço.”
Martin Seligman

Inês Sottomayor, Arquiteta de Sonhos

Referências 

  • Braithwaite, V. (2004). The hope process and social inclusion. In The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science.
  • Krafft, A. M. (2024). Hope Barometer: Hope between anxiety and trust. University of St. Gallen.
  • Krafft, A. M., & Walker, A. M. (2023). Positive Psychology of Hope. In: Positive Psychology – Fundamentals and Practice.
  • Snyder, C. R. (2002). Hope theory: Rainbows in the mind. Psychological Inquiry, 13(4), 249-275.
  • Snyder, C. R., et al. (1991). The will and the ways: Development and validation of an individual-differences measure of hope. Journal of Personality and Social Psychology, 60(4).