… e o florescimento humano!
Durante muito tempo, a criatividade foi tratada como um talento — algo reservado a artistas, génios ou “mentes especiais”. Mas a ciência conta-nos uma história diferente: a criatividade é uma força de caráter, presente em todos nós e com potencial de desenvolvimento ao longo da vida (Peterson & Seligman, 2004).
Melhor dizendo, mais do que um talento, é uma competência essencial. Num mundo incerto e em constante mudança, como refere Nakano e Wechsler (2018), trata-se de uma capacidade “fundamental para lidar com as exigências contemporâneas” (p. 238).
E, ainda assim, muitos adultos dizem: “eu não sou criativo.” Talvez a questão não seja essa. Talvez a pergunta mais honesta seja: em que momento deixámos de nos permitir ser?
A criatividade não desaparece — é silenciada
A investigação é clara: a criatividade está amplamente distribuída e manifesta-se de forma particularmente evidente na infância. Como afirma Runco (2014), “everyone has creative potential” (p. 3). Mas, ao longo do tempo, algo muda.
Ambientes que valorizam respostas certas em vez de perguntas interessantes, culturas que penalizam o erro, contextos que privilegiam a conformidade — tudo isto contribui para uma redução da expressão criativa.
Não porque a capacidade desapareça, mas porque deixa de ser segura.
A criatividade não se perde. Aprendemos, subtilmente, a não a usar.

| “Everyone has creative potential.”(Runco, 2014, p. 3) |
Criatividade: não basta ser diferente
Criatividade não é apenas ter ideias fora da caixa. É ter ideias que fazem sentido dentro dela — ou que a transformam.
Na definição clássica de Runco e Jaeger (2012), criatividade implica algo simultaneamente “original and effective” (p. 92).
Além disso, não é um momento isolado de inspiração. É um processo.
Como descreve Sowden et al. (2014), envolve “a dynamic interplay between intuitive and analytical processes” (p. 45), ou seja: criar é pensar, testar, ajustar, voltar a pensar.
É menos “eureka” — e mais construção.
Da criatividade à inovação: a centelha precisa de combustível
A criatividade inicia. A inovação concretiza.
Mas entre uma e outra existe um espaço exigente — onde entram outras forças de caráter: curiosidade, coragem, persistência, colaboração (Peterson & Seligman, 2004; Sternberg & Kaufman, 2018).
Ideias surgem facilmente.
Sustentá-las, desenvolvê-las e implementá-las — isso exige caráter.
Criatividade e bem-estar: mais do que produtividade
Num contexto onde a criatividade é frequentemente associada à performance, há um aspecto que merece mais atenção: o seu impacto no bem-estar.
O envolvimento em atividades criativas está fortemente associado ao estado de flow, descrito por Csikszentmihalyi (1996) como momentos em que estamos “fully involved in an activity for its own sake” (p. 4).
Criar não é apenas produzir algo externo. É também reorganizar o mundo interno.
| “Fully involved in an activity for its own sake.” (Csikszentmihalyi, 1996, p. 4) |

Recuperar a criatividade: talvez seja mais simples (e mais difícil) do que parece
Num mundo que exige adaptação constante, a criatividade não é um extra — é uma necessidade.
Mas recuperá-la não passa por aprender algo novo. Passa, muitas vezes, por desaprender.
Desaprender o medo do erro.
Desaprender a necessidade de acertar à primeira.
Desaprender a ideia de que há uma única forma correta de fazer.
Recuperar a criatividade pode ser, no fundo, um ato de permissão.
E se criássemos esse espaço?
Fica um convite.
E se, em vez de apenas pensar sobre criatividade, criássemos condições para que ela acontecesse?
Um encontro ao ar livre.
Sem agenda rígida.
Sem respostas certas.
Um mind session onde a pergunta não é “qual é a melhor ideia?”, mas: Que ideias ainda não nos permitimos explorar?
Porque talvez a criatividade não precise de ser ensinada. Talvez precise apenas de espaço — e de coragem — para regressar.
Cristina Soares, Psicóloga, sócia-fundadora da APPFHS
Referências
Csikszentmihalyi, M. (1996). Creativity: Flow and the psychology of discovery and invention. HarperCollins.
Forgeard, M. J. C., & Mecklenburg, A. C. (2013). The two dimensions of motivation and a reciprocal model of the creative process. Review of General Psychology, 17(2), 255–266. https://doi.org/10.1037/a0032104
Nakano, T. C., & Wechsler, S. M. (2018). Criatividade e inovação: competências para o século XXI. Estudos de Psicologia (Campinas), 35(3), 237–246. https://doi.org/10.1590/1982-02752018000300002
Peterson, C., & Seligman, M. E. P. (2004). Character strengths and virtues: A handbook and classification. Oxford University Press.
Runco, M. A. (2014). Creativity: Theories and themes: Research, development, and practice (2nd ed.). Elsevier.
Runco, M. A., & Jaeger, G. J. (2012). The standard definition of creativity. Creativity Research Journal, 24(1), 92–96. https://doi.org/10.1080/10400419.2012.650092
Sakamoto, C. K. (2000). Criatividade: uma visão integradora. Psicologia: Teoria e Prática, 2(1), 50–58.
Sowden, P. T., Pringle, A., & Gabora, L. (2014). The shifting sands of creative thinking: Connections to dual-process theory. Thinking & Reasoning, 21(1), 40–60. https://doi.org/10.1080/13546783.2014.885464
Sternberg, R. J., & Kaufman, J. C. (2018). The Cambridge handbook of creativity (2nd ed.). Cambridge University Press.

