Otimismo: porque manter a esperança ativa promove o florescimento humano e societal

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Na Psicologia Positiva, o otimismo não é sinónimo de pensamento mágico, negação da realidade ou ingenuidade emocional. Pelo contrário, é entendido como uma tendência aprendida para interpretar as adversidades como temporárias, específicas e não pessoais, mantendo a capacidade de agir de forma orientada para objetivos, mesmo em contextos de incerteza ou dificuldade.

Um dos contributos mais relevantes para esta conceptualização vem de Martin Seligman, que introduziu o conceito de otimismo aprendido (learned optimism). A sua investigação demonstrou que os estilos explicativos podem ser treinados, ajudando a reduzir a vulnerabilidade à depressão, à desistência perante o fracasso e ao desânimo crónico. O que diferencia pessoas mais otimistas não é a ausência de dificuldades, mas a forma como atribuem significado aos acontecimentos e preservam a perceção de agência.

Paralelamente, décadas de investigação sobre otimismo disposicional, desenvolvida por Michael Scheier e Charles Carver, associam expectativas positivas em relação ao futuro a melhores resultados de saúde física e psicológica. Pessoas mais otimistas tendem a persistir mais perante obstáculos, a adotar comportamentos de saúde mais consistentes e a construir redes sociais de maior suporte — fatores amplamente documentados em estudos clássicos e em revisões publicadas em revistas científicas de referência.

A investigação de Barbara Fredrickson acrescenta uma perspetiva essencial através da teoria Broaden-and-Build. Segundo este modelo, emoções positivas — como a esperança, a gratidão e o otimismo — alargam o nosso repertório de pensamento e ação, promovendo maior criatividade, flexibilidade cognitiva e capacidade de resolução de problemas. Ao longo do tempo, estas emoções constroem recursos duradouros — cognitivos, sociais, psicológicos e até físicos — que reforçam a resiliência e o bem-estar.

Importa, contudo, sublinhar que o otimismo não elimina os desafios nem garante resultados positivos em todas as circunstâncias. A ciência mostra que a relação entre otimismo e saúde pode variar consoante o contexto, o tipo de stresse e as exigências enfrentadas. Estudos em áreas como a psiconeuroimunologia indicam que o impacto do otimismo na resposta imunitária depende de fatores situacionais específicos, reforçando a ideia de que o otimismo adaptativo é realista, regulado e contextualizado.

Neste sentido, o otimismo saudável não ignora riscos nem dificuldades. Ele ajusta o foco e a energia para os enfrentar, combinando esperança com responsabilidade, planeamento e ação concreta. Trata-se de acreditar que o futuro pode ser melhor, enquanto se constroem, no presente, os caminhos possíveis para essa melhoria.

Este otimismo manifesta-se também em gestos simples e quotidianos, frequentemente subestimados, mas profundamente transformadores nas relações humanas e no tecido social. Como escreveu Leo Buscaglia:

“Demasiadas vezes subestimamos o poder de um toque, de um sorriso, de uma palavra amável, de um ouvido atento, de um elogio sincero ou do mais pequeno gesto de cuidado — todos eles com o potencial de transformar uma vida.”

A literatura e o pensamento humanista ecoam esta visão, lembrando-nos que a esperança ativa se constrói na forma como interpretamos e transformamos a experiência vivida. Fernando Pessoa escreveu: “Guardo todas as pedras do caminho, um dia construirei um castelo.” Uma metáfora poderosa sobre a capacidade de converter obstáculos em estrutura e sentido.
Clarice Lispector recorda-nos que “Tudo no mundo começou com um sim”, sublinhando a abertura ao possível como motor de movimento.
Machado de Assis oferece um olhar lúcido e pragmático: “A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.”

Em síntese, cultivar um otimismo aprendido, realista e relacional fortalece a capacidade de persistir nos objetivos, de criar soluções, de cuidar da saúde e de estabelecer ligações significativas com os outros — pilares essenciais do florescimento humano e societal.

É neste enquadramento científico e humanista que a Associação de Psicologia Positiva, Florescimento Humano e Societal (APPFHS) dedica o mês de janeiro ao tema do otimismo, convidando à reflexão, à prática e à partilha de uma esperança ativa, informada e responsável.

Porque o florescimento começa em cada pessoa, mas concretiza-se sempre em relação — com os outros e com o mundo que construímos em conjunto.

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Referencias

  • Seligman, M. E. P. (1990). Learned Optimism. New York: Knopf.
  • Seligman, M. E. P. (2011). Flourish. New York: Free Press.
  • Scheier, M. F., & Carver, C. S. (1985). Optimism, coping, and health. Health Psychology, 4(3), 219–247.
  • Scheier, M. F., Carver, C. S., & Bridges, M. W. (1994). Distinguishing optimism from neuroticism. Journal of Personality and Social Psychology, 67(6), 1063–1078.
  • Rasmussen, H. N., Scheier, M. F., & Greenhouse, J. B. (2009). Optimism and physical health: A meta-analytic review. Annals of Behavioral Medicine, 37, 239–256.
  • Rozanski, A. et al. (2019). Association of optimism with cardiovascular events and all-cause mortality. JAMA Network Open, 2(9).
  • Sharot, T. (2011). The optimism bias. Current Biology, 21(23), R941–R945.