Saúde Mental no Luto: Quando perdemos os mapas

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Assinalamos o mês da saúde mental e, ironicamente, sinalizamos diariamente a ausência da mesma. Saúde mental não é apenas a ausência de um diagnóstico. De acordo com a OMS, “é um estado pleno de bem-estar físico, mental e social, que nos permite lidar com as tensões da vida, desenvolvendo capacidades (…)”. Mas o que acontece quando a tensão é uma rutura definitiva?

Vivemos numa era de cérebros em regime de ignição permanente, onde o motor nunca arrefece e a sobre estimulação é o normal. Esquecemos que o descanso e o tédio são o terreno fértil onde a saúde mental se cultiva. Sem eles, o stress oxidativo torna-se a ferrugem silenciosa que corrói o nosso bem-estar.

Quando temos um cérebro hiper ativado, encontramos normalmente uma certa abstração do que está a acontecer no corpo. Pequenos sinais vão surgindo, mas não são vistos, nem ouvidos, nem sentidos, até que de repente, num certo dia, um ou vários sintomas gritam mais alto. E se uma perna partida tem o “privilégio” do gesso visível, a dor emocional é muitas vezes uma hemorragia interna invisível. Não se pede a quem tem um fémur partido para “ir dar um passeio ao sol”; por que razão exigimos “força de vontade” a quem está com a alma em estilhaços?

Esta é uma das grandes dificuldades da nossa sociedade: lidar com a dor do outro.
Carl Jung dizia que só conseguimos lidar com a dor de alguém, na medida em que conseguimos lidar com a nossa própria dor e que, tal só é possível se já tivermos “enfrentado e integrado as nossas próprias sombras”.

Uma dessas sombras é o luto. E para o compreendermos, precisamos olhar para o que a investigadora Mary-Frances O’Connor descreve como “The Grieving Brain” (O Cérebro em Luto). O luto não é apenas uma emoção; é um processo de aprendizagem biológica. O nosso cérebro possui um “GPS” interno que mapeia onde os nossos entes queridos estão no tempo e no espaço. Quando alguém morre, o mapa torna-se obsoleto, mas o GPS continua a tentar calcular a rota para um destino que já não existe.


Esta falha de sinal consome uma energia cognitiva abismal. É por isso que o enlutado sente nevoeiro mental, exaustão, falta de memória, entre tantos outros sintomas que, nenhuma noite de sono ou café resolvem. Perante isto, a nossa tendência social é oferecer um “penso rápido”: frases feitas que servem mais para calar o nosso desconforto do que para escutar o outro. É uma fantasia acreditar que podemos “tirar” a dor de alguém para que ela “siga em frente”. Na verdade, o que o ser humano necessita, é apenas de companhia na sua dor.

Gabor Maté recorda-nos que “a segurança não é a ausência de ameaça, mas a presença de conexão“. Apoiar alguém em luto não é tentar tirar a pessoa da gaiola da dor; é entrar nela e deixar a porta aberta. A simples presença serve de “fio terra” para um sistema em curto-circuito.

Esta necessidade de conexão estende-se ao mundo corporativo, onde o luto ainda veste fato e gravata e tem um prazo de validade legal de cinco dias. No entanto, o luto não tira férias, não respeita horários de trabalho e não segue o tempo cronológico. Ignorá-lo é um erro de gestão: um colaborador sem apoio é um candidato ao burnout, à depressão e à ansiedade.  Se o cérebro gasta 90% da energia a processar a perda, exigir 100% de produtividade é empurrar o sistema para o colapso.

A implementação de programas de apoio é inteligência organizacional. Integrar o luto nas políticas de saúde mental, previne que uma perda pessoal (por morte ou divórcio), ou profissional (por deslocalização, reestruturações, mudança de funções), se transforme num quadro clínico crónico. As empresas devem promover redes de apoio com protocolos personalizados, capacitando a pessoa enlutada, assim como a sua equipa a gerir o impacto sistémico da perda. A vulnerabilidade é o cimento de equipas resilientes. Uma empresa que não sabe cuidar de quem perde, acaba por perder no absentismo, o seu capital mais precioso: as pessoas.

Neste mês da saúde mental, é imperativo falar de quem segura a lanterna nos túneis escuros da vida. Os profissionais de saúde mental não são observadores imunes; são instrumentos afinados que, por vezes, também desafinam.

Um psicólogo não “dá só consultas”. E alguns, muito poucos, acompanhamos alguns clientes a lugares onde não conseguem ir sozinhos, despedirem-se de quem não conseguiram despedir-se. Vamos à natureza e fazemos exercícios ou rituais que ajudam na co e autorregulação. Vamos à praia e simplesmente ficamos ali em silêncio acompanhado. Fazemos áudios personalizados para os que precisam de ouvir aquela referência de voz segura.  Ligamos em videochamada para acompanhar naquele momento crítico de ansiedade. Ficamos ali ao lado daquele cliente que adormeceu numa consulta presencial porque ficou totalmente relaxado. Sabemos dos momentos mais felizes da vida destas pessoas, assim como dos mais tristes. Temos o privilégio de testemunhar a sua vida.

Mas, por trás desta presença empática, existe um fenómeno de espelho. A dor do cliente muitas vezes toca na nossa própria cicatriz. O luto do outro convida o nosso a sentar-se à mesa.
E quando o dia termina, despimos o papel de terapeuta para vestir o de mulher, mãe, filha, irmã (…), — que também chega a casa exausta, que também lida com lutos, conflitos, outras faltas e que também precisa de um lugar seguro para regenerar, antes de iniciar o segundo turno de prestação de cuidados.
E por isso é tão importante que quem cuida, precisa cuidar-se e ser cuidado, para prestar o melhor serviço de cuidado ao outro.

Que este outubro nos ensine que a saúde mental não é um destino, mas a manutenção do caminho. Que saibamos atualizar os nossos mapas, acolher quem está na gaiola e humanizar as organizações. Porque, no fim do dia, somos todos aprendizes na arte de perder e de nos reencontrarmos. Não deixemos que o luto se torne uma luta solitária.

Cuidar de quem cuida e validar a dor de quem perde é, talvez, a forma mais alta de saúde que podemos praticar.

Alexandra Cordeiro
Psicóloga Clínica e Organizacional (C.P. 022923),
Especialista em Luto e Burnout