Sentimento de Pertença, Inclusão e Florescimento

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O sentimento de pertença é a sensação profunda de ser aceite, valorizado e incluído num grupo ou contexto. 

Mais do que estar fisicamente presente, trata-se de uma conexão emocional e subjetiva onde o indivíduo sente que o seu lugar é relevante para o todo. 

Pertencer significa sentir-se parte, perceber-se reconhecido, valorizado e aceite na ligação a outros de forma significativa, constituindo uma experiência relacional que sustenta o bem-estar individual e coletivo.

sentimento de pertença é uma necessidade humana básica, situa-se no terceiro nível da Pirâmide de Maslow – categoria das necessidades sociais ou de amor, a seguir à satisfação das necessidades fisiológicas e de segurança, focando-se no relacionamento com a família, nas relações de amizade e também nas interações laborais. 

Por que é fundamental?

  • Necessidade Humana Básica:  Enquanto sensação interna de se estar genuinamente inserido, proporciona segurança psicológica, estabilidade emocional e propósito coletivo. Sustenta a plena exploração do potencial individual, desenvolve a criatividade e contribui para uma vida com mais sentido.  
  • Impacta na Saúde Mental: Reduz a ansiedade e a depressão, por oposição ao isolamento que pode causar sofrimento emocional e baixar a imunidade. É fundamental para evitar solidão e promover o bem-estar. 
  • Confere propósito à vida: Ajuda a construir quem somos, a afirmar a nossa identidade e a dar sentido à existência humana através dos laços sociais. 

O sentimento de pertença é como uma estrada de dois sentidos: depende tanto do acolhimento do grupo quanto da vontade do indivíduo se envolver e de querer contribuir. 

Num mundo cada vez mais diverso e complexo, promover pertença é também um compromisso ético com a inclusão, a dignidade e os direitos humanos.

Pertencer é fundamental para florescer

O modelo PERMA (Seligman, 2011), amplamente divulgado e aplicado no âmbito da Psicologia Positiva, integra as Relações Positivas como um dos seus cinco pilares centrais. Relações caracterizadas por aceitação, confiança e reconhecimento estão fortemente associadas a níveis mais elevados de bem-estar, envolvimento e sentido de vida.

A este enquadramento soma-se a Need to Belong Theory, que evidencia que “o sentido de pertença é uma necessidade psicológica básica; todos procuram interações positivas e vínculos duradouros que lhes permitam ser reconhecidos e incluídos.” (Baumeister & Leary, 1995). Segundo esta teoria, a necessidade de pertencer é universal, transversal a culturas e idades, e profundamente enraizada na experiência humana. A ausência de pertença está associada a sofrimento psicológico, diminuição da autoestima e fragilidade na participação social.

Também para a Psicologia Positiva, o sentimento de pertença é uma condição essencial para o bem-estar e para o florescimento sustentável das pessoas e das comunidades.

Pertencimento, Inclusão e Deficiência Intelectual

No contexto da educação especial, da intervenção social e do acompanhamento de pessoas com deficiência intelectual (DI), o sentimento de pertença assume um papel ainda mais estruturante. A investigação demonstra que a exclusão simbólica, a falta de participação real e a desvalorização da voz da pessoa comprometem o desenvolvimento da identidade, da autodeterminação e do bem-estar.

Promover pertença, neste contexto, implica criar ambientes onde a pessoa é reconhecida como sujeito ativo, com direitos, competências e capacidade de contribuir. É neste ponto que a Psicologia Positiva se cruza com práticas inclusivas e com uma visão de florescimento humano que não deixa ninguém para trás.

Pertencer é ser reconhecido: a ligação à Autorrepresentação

Se considerarmos que pertencer é ser reconhecido, ter voz, participar e ser valorizado, então o sentimento de pertença está profundamente ligado à autorrepresentação.

O que entendemos por Autorrepresentação?

autorrepresentação refere-se à capacidade da própria pessoa expressar opiniões, escolhas, necessidades e desejos, participando ativamente nas decisões que afetam a sua vida. Está intimamente relacionada com a autodeterminação, o empoderamento psicológico e o exercício de cidadania.

No caso das pessoas com DI, a autorrepresentação significa uma mudança de paradigma: da fala “sobre” a pessoa para a fala “pela” própria pessoa. É uma condição essencial para que a inclusão seja vivida e não apenas declarada. 

A investigação reforça a autorrepresentação e é um fator chave para o desenvolvimento da identidade e do sentimento de pertença. Segundo Shogren, Wehmeyer & Schalock (2017) a “autorrepresentação permite que cada pessoa com deficiência participe das decisões que a afetam, fortalecendo a identidade, a confiança e o sentimento de pertença.”

  • Com autorrepresentação, o pertencimento torna-se vivido, sentido e sustentado.

Capacitar para pertencer: contributos da Psicologia Positiva

No alinhamento com a missão da APPFHS — Associação de Psicologia Positiva, Florescimento Humano e Societal, capacitar pessoas e profissionais para promover autorrepresentação é investir em contextos mais humanos, justos e florescentes.

A Psicologia Positiva oferece estratégias baseadas em evidência que fortalecem simultaneamente a voz individual e o sentido de pertença coletiva.

Estratégias de Psicologia Positiva para promover Autorrepresentação e Pertencimento

1. Promover participação significativa
Criar espaços onde as opiniões são escutadas, consideradas e têm impacto real reforça o sentido de valor pessoal e de pertença ao grupo ou à comunidade.

2. Identificar e valorizar forças pessoais
O trabalho com as forças de carácter aumenta a confiança, a autoestima e a perceção de competência, facilitando a expressão de si e a participação ativa.

3. Cultivar relações positivas e capacitadoras
Relações profissionais baseadas na confiança, no respeito e na crença genuína nas capacidades da pessoa são fundamentais para o desenvolvimento da autorrepresentação e do pertencimento.

Em síntese

O sentimento de pertença é um dos alicerces do florescimento humano e societal. Para pessoas com deficiência intelectual, promover pertença implica reconhecer a autorrepresentação como direito, prática e processo contínuo.

Ao capacitar para a autorrepresentação, criamos contextos onde cada pessoa pode dizer: “eu pertenço, eu conto, eu faço parte”.

O florescimento começa quando cada pessoa sente que a sua voz tem lugar e significado.

Rute Santos, Sócia fundadora da APPFHS

Referências

  • Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.
  • Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A visionary new understanding of happiness and well-being. Free Press.
  • Wehmeyer, M. L. (2005). Self-determination and individuals with disabilities. Exceptionality, 13(1), 3–17.
  • Schalock, R. L., et al. (2010). Intellectual disability: Definition, classification, and systems of supports. AAIDD.
  • Shogren, K. A., Wehmeyer, M. L., & Schalock, R. L. (2017). Supported decision-making and self-determination: Implications for policy and practice. Inclusion, 5(4), 286–29.