Sentido de Vida e Propósito: o coração do florescimento humano

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Há uma pergunta que a humanidade carrega há séculos e que, curiosamente, se tornou ainda mais urgente no tempo em que vivemos: para quê?

Para quê este trabalho? Para quê este esforço? Para quê esta vida — exactamente como a estou a viver?

Não é uma pergunta de fraqueza. É, segundo a Psicologia Positiva, uma das perguntas mais fundamentais que um ser humano pode fazer. E a ciência tem, finalmente, respostas rigorosas para lhe dar.

Sentido de vida e propósito — dois conceitos distintos, um território comum

Em português, a literatura científica estabelece uma distinção importante: sentido de vida (meaning in life) e propósito (purpose) são construtos relacionados, mas não idênticos.

O sentido de vida refere-se ao sentimento de que a nossa vida e as nossas experiências fazem sentido e importam. É simultaneamente cognitivo — compreender a nossa existência — e afectivo — sentir que ela tem valor.

Segundo Martela e Steger (2016), o conceito de sentido de vida pode ser dividido em três elementos: significância — sentir que a nossa vida tem valor e importância; coerência — a capacidade de dar sentido às experiências e à identidade; e propósito — a perseguição de objectivos abrangentes e de longo prazo que orientam as escolhas diárias.

O propósito, neste enquadramento, não é uma resposta que se encontra de uma vez para sempre. É uma direcção — uma direção que orienta as nossas escolhas, o nosso trabalho e as nossas relações.

O que a ciência nos diz

O Professor Michael F. Steger, Director Fundador do Center for Meaning and Purpose na Colorado State University, dedica a sua investigação a compreender como as pessoas florescem através da construção de sentido e propósito nas suas vidas e no seu trabalho. Com mais de 150 artigos científicos e os instrumentos de medição mais utilizados na área — o Meaning in Life Questionnaire (MLQ) e o Work and Meaning Inventory (WAMI) —, Steger é hoje uma das vozes mais citadas neste campo.

O que a sua investigação demonstra de forma consistente é que ter sentido de vida não é um luxo existencial. É uma necessidade psicológica com consequências mensuráveis no bem-estar, na saúde e na longevidade.

Intervenções desenhadas para cultivar o sentido têm efeitos de magnitude elevada no aumento do bem-estar e na redução do stress e do sofrimento psicológico. E o impacto estende-se ao corpo: um estudo de 2024 publicado em Psychology and Aging concluiu que, embora a satisfação com a vida não predissesse de forma fiável a longevidade dos participantes, um sentido forte de propósito sim. 

Viver com sentido, em suma, não é apenas viver melhor. É, literalmente, viver mais.

Um tempo curioso da história

Neste mês de Abril, a APPFHS acolhe com entusiasmo a voz de Kiko Kislansky — cofundador do World Meaning and Purpose Summit, escritor e um dos pensadores mais activos na intersecção entre propósito, desenvolvimento humano e transformação organizacional.

No texto que partilha connosco — e que podes ler na íntegra aqui —, Kislansky parte de uma tensão que muitos de nós reconhecemos: nunca tivemos tanto acesso, tanta informação, tantas oportunidades — e ainda assim uma sensação silenciosa atravessa pessoas e organizações inteiras: a sensação de falta de sentido.

É exactamente desta tensão que nasce o movimento que Kiko Kislansky, Michael Steger e Helena Marujo ajudaram a criar: um espaço onde a ciência, a filosofia e a experiência humana se encontram para responder, juntos, às perguntas que mais importam: o Meaning & Purpose World Alliance.

O sentido não é um destino — é uma prática

Tal como acontece com o bem-estar e com a felicidade, o sentido de vida não é um estado que se alcança de uma vez. As pessoas diferem muito na intensidade com que procuram sentido. E, surpreendentemente, mesmo aquelas que sentem que a sua vida já é plena de sentido continuam a procurar mais motivações, a encontrar novos objetivos e a evoluírem a cada dia.

Isto não é uma contradição. É uma das características mais belas do florescimento humano: a abertura permanente ao crescimento, à revisão e ao aprofundamento do que nos move.

A Psicologia Positiva Aplicada oferece-nos, neste domínio, um conjunto de práticas com suporte empírico. Identificar os nossos valores centrais. Reflectir sobre aquilo que fazemos quando o tempo passa sem que nos apercebamos. Perguntar para que fazemos o que fazemos e não apenas enumerarmos as atividades que nos ocupam os dias. Cultivar relações com pessoas que vivem com intenção. Encontrar formas de contribuir para algo maior do que nós próprios.

Nenhuma destas práticas é nova. Mas o facto de hoje as podermos ancorar em décadas de investigação rigorosa muda a forma como as abordamos — com menos culpa, mais curiosidade e maior confiança de que o caminho faz sentido.

Para terminar — com uma pergunta aberta

Viktor Frankl escreveu, depois de sobreviver ao insuportável: «Quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.» A Psicologia Positiva veio confirmar, com dados e metodologia, o que ele aprendeu na extremidade da experiência humana.

Este Abril, o convite é simples: diga não a uma resposta definitiva e sim a uma pergunta honesta:

Para quê?

Fique com ela. Leve-a para o dia a dia.

Observe o que se move quando a faz.


Referências

Frankl, V. E. (1946/2012). O Homem em Busca de Sentido. Lua de Papel.

Martela, F., & Steger, M. F. (2016). The three meanings of meaning in life: Distinguishing coherence, purpose, and significance. The Journal of Positive Psychology, 11(5), 531–545.

Steger, M. F. (2009). Meaning in life. In S. J. Lopez (Ed.), Oxford handbook of positive psychology (2nd ed., pp. 679–687). Oxford University Press.

Steger, M. F., Frazier, P., Oishi, S., & Kaler, M. (2006). The Meaning in Life Questionnaire: Assessing the presence of and search for meaning in life. Journal of Counseling Psychology, 53(1), 80–93.

Steger, M. F., & Dik, B. J. (2009). If one is searching for meaning in life, does meaning in work help? Applied Psychology: Health and Well-Being, 1(3), 303–320.

Kislansky, K., & Almeida, E. (2020). O Poder do Propósito: Como viver com mais sentido e potencializar resultados através do Método Ikigai. Editora Leader.